segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Confusão de Bicos Artificiais - Por Carlos González

Fragmento de Un Regalo para toda la vida e de Comer, Amar, Amar, de Carlos González
Tradução: Sandra Costa
Revisão: Luciana Freitas

Todo mundo sabe que quando as crianças se acostumam com a mamadeira podem acabar deixando o peito. Muitas mães dizem: "enjoou do peito". A explicação mais popular é que "como a mamadeira é mais fácil, se tornam preguiçosos e não querem se esforçar pra mamar no peito".
Mas isso não está correto. A mamadeira não é mais fácil. Vários estudos, tanto em bebês prematuros como em bebês com graves problemas cardíacas, demostram que a frequência cardíaca e respiratória e o nível de oxigênio no sangue se mantêm mais estáveis quando mamam no peito do que quando tomam uma mamadeira. As crianças nascem para mamar, seus músculos e seus reflexos estão especialmente desenhados para isso, enquanto que tomar uma mamadeira requer um aprendizado específico.

O problema não é que seja mais fácil ou mais difícil, e sim que é diferente. O leite precisa ser tirado do peito, exceto as poucas gotas que saem sozinhas, e para isso a língua tem é empurrada ritmicamente para atrás. Além de tirar o leite, este movimento tende a introduzir o peito cada vez mais dentro da boca, o que por sua vez permite que o bebê mame melhor. Já da mamadeira, ao contrário, o leite sai sozinho; o bebê precisa impedir que ele saia para poder engolir o que já tem na boca. Com a mamadeira, a língua se move ritmicamente para a frente. Esse movimento tende a tirar a mamadeira da boca. Para impedir isso, todos os bicos de mamadeira e chupetas do mundo se alargam na ponta, formando uma espécie de bola que serve de obstáculo. Atrás do obstáculo, o bico sofre um estreitamento, para que o bebê possa tomar a mamadeira com a boca quase fechada; se abrisse tanto a boca como faz para mamar no peito, de nada lhe serviria o obstáculo, e a mamadeira se escaparia da boca sem com certeza.

Alguns bebês maiorzinhos alternam sem nenhum problema peito e mamadeira (ou chupeta), fazendo cada vez os movimentos precisos com a língua e com os lábios. Mas nas primeiras semanas são muitos os que fazem uma confusão; se tomam bem um, não se acertam com o outro. Durantes os primeiros dias, muitas mães dizem: "toda hora quer mamar no peito, mas não pega a chupeta de forma alguma" (toda hora significa aqui em menos de três horas) e muitas outras exclamam: "não quer mamar e não entendo o que acontece com ele, porque toda hora fica chupando chupeta" (e claro, a típica explicação: "Não quer o peito porque não sai nada", não tem sentido; nunca saiu nada de uma chupeta, e como chupam).

A primeira vez que dão uma mamadeira a um recém-nascido (por exemplo, quando no meio da noite alguém decide lhe dar uma mamadeira para não acordar a mãe), muitas vezes, o bebê não quer aceitar. Além do leite com gosto esquisito e do bico estranho, duro e tem uma forma estranha, quando ele tenta mamar como se fosse o peito, o leite sai com tanta velocidade que ele engasga. O bebê põe o bico pra fora, cuspindo e chorando. Mas a enfermeira continua insistindo. A enfermeira carinhosa diz: “não é nada, sh-sh-sh, esta menina tão esperta vai tomar o seu leitinho”; a enfermeira mal-humorada diz: “já tá bom de palhaçada, né? Tá achando o quê, menina?”, mas as duas insistem. Depois de uns segundos de angústia a menina descobre que fazendo assim ou assado com a língua já não engasga. “Muito bem, viu como foi fácil?", diz uma enfermeira, “viu como era conversa fiada?”, diz a outra.

Horas mais tarde, quando levam o recém-nascido para sua mãe, o bebê pensa o que mais tarde dirá centenas de vezes: “olha, mamãe, olha o que sei fazer!" Tenta fazer com o peito o que acaba de aprender com a mamadeira, empurrando com a língua. Surpresa e consternação, porque o peite sai da boca do bebê. Porque o peito não tem o obstáculo, todos os peitos do mundo acabam numa ponta.

“Recusa meu peito, chorando”, fala a atordoada mãe. Exausta depois do parto, em pleno furacão hormonal, como baby blues (mais leve, mas muito mais frequente do que a depressão), a mãe na realidade está dizendo: “recusa meu peito, chorando”. Se sente rejeitada pelo próprio filho. É possível descer tão baixo? “Não se preocupe, já vai se ajeitar", diz a enfermeira carinhosa. “Claro, porque você não tem leite”, diz a enfermeira mal-humorada. Levam o bebê e lhe dão uma outra mamadeira. É o princípio do fim.
[...]
Alguns médicos insistem que a confusão de bicos não existe e que dar uma ou várias mamadeiras ao recém-nascido não prejudica em nada a amamentação. O certo é que não existem provas experimentais, porque para isso teriam que oferecer mamadeiras de propósito a um grupo de bebês, escolhidos aleatoriamente, para ver o que acontece. Os que acreditam que isso não é ruim não se dão ao trabalho de fazer o estudo, os que acreditam que sim, que é mal, pensam não ser ético conduzir um estudo assim. “E daí se existe ou não existe?”, pensará o leitor; diante da dúvida, é melhor não dar mamadeira e pronto. Mas alguns dos que não acreditam na confusão de bicos recomendam dar a todos os bebês de peito uma mamadeira por cada semana, no mínimo, para que eles se acostumem. Porque senão, quando a mãe volta a trabalhar, ou por qualquer outro motivo tenha que sair de casa, o bebê rejeitará a mamadeira. Vamos combinar que reconhecem que a confusão de bicos existe pela menos no sentido contrário, de que o bebê que se acostuma ao peito logo rejeita a mamadeira.

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