segunda-feira, 30 de março de 2015

O último tabu

Nossa sociedade parece muito tolerante, porque muitas das coisas que estavam proibidas há cem anos agora são consideradas completamente normais. Mas, se olharmos bem, também há coisas que há cem anos eram normais e que agora são proibidas. Tão completamente proibidas que até parece normal que seja assim, tão normal como deveria ser para os nossos bisavós o seu sistema de tabus e de proibições. 

Muitos dos antigos tabus referiam-se ao sexo; muitos dos atuais referem-se à relação entre mãe-filho, para infelicidade  das crianças e das suas mães. Por exemplo, a palavra "vício" agora é usada de uma forma totalmente diferente de como nossos avós a usavam. Quase tudo que então era vício agora já deixou de ser. Beber, fumar ou jogar agora são doenças (alcoolismo, tabagismo, ludomania), e assim o pecador foi convertido em uma vítima inocente. A masturbação (o “vício solitário” que tanto preocupava os médicos e educadores) é considerada normal. A homossexualidade é simplesmente um estilo de vida. Falar de vício em qualquer desses casos seria considerado um grave insulto hoje em dia. Agora consideramos vício algumas atividades inocentes das crianças pequenas: “Ele tem o vício de morder as runhas”, “Ele está chorando por puro vício”, “Se você o pegar no colo ele vai ficar viciado”, “Acontece que ele está ficando viciado com o peito, por isso ele não come a papinha”. 

Se você ainda tem dúvida sobre quais são os verdadeiros tabus da nossa sociedade, imagine que você vai ao médico e conta a ele uma das seguintes histórias:
1) "Tenho um filho de 3 anos e vim ver se posso fazer os exames de Aids, porque nesse verão tive relações sexuais com vários desconhecidos."
2) "Tenho um filho de 3 anos e fumo um maço de cigarros por dia."
3) "Tenho um filho de 3 anos. Eu o amamento e ele dorme na nossa cama."

Em qual dos três casos você acha que o médico lhe daria uma bronca? No primeiro caso ele diria “tudo bem” e pediria um exame de Aids sem pestanejar. No máximo, ele poderia  educadamente adverti-la sobre a conveniência de usar o preservativo. No segundo caso seria o mesmo, ele explicaria que o tabaco não é bom para a saúde (e se o médico também fumasse, não lhe diria nada). Ninguém a repreenderia: “Mas que descarada, como você se atreve, uma mulher casada, uma  mãe de família!”.
E no terceiro caso? Conheço uma história real. Quando a psicóloga da escolinha ficou sabendo que Maribel estava amamentando o seu filho de 16 meses, chamou-a para avisá-la que se ela não desmamasse imediatamente o seu filho seria homossexual  (não se sabe se o mais assombroso é o preconceito contra a amamentação ou contra a homossexualidade). Como Maribel persistiu na sua atitude “perigosa”, a psicóloga foi até a sua casa para falar diretamente com o seu marido e adverti-lo do dano que a esposa estava fazendo ao filho de ambos.

Nossa sociedade, tão tolerante em alguns  aspectos, é muito pouco compreensiva com as crianças e as mães. Esses tabus modernos poderiam ser classificados em três grandes grupos:
- Relacionados ao choro: é proibido dar atenção às crianças que choram, pegá-las no colo, dar o que pedem.
- Relacionados ao sono: é proibido fazer uma criança dormir no colo ou mamando no peito, cantar ou embalá-la para que durma, dormir com ela.
- Relacionados à amamentação: é proibido dar o peito a qualquer hora ou em qualquer lugar ou a uma criança grande “demais”.

Quase todos esses tabus têm uma coisa em comum: proíbem o contato físico entre mãe e filho.  Por outro lado, gozam de excelente reputação todas aquelas atividades com tendência a diminuir o contato físico e aumentar a distância entre mãe e filho:
- Deixá-lo sozinho no seu próprio quarto.
- Levá-lo em um carrinho de bebê ou em um moisés muito incômodo.
- Levá-lo ao berçário o mais cedo possível ou deixá-lo com a avó, ou melhor, com a babá (as avós estragam!).
- Enviá-lo a colônias de férias ou acampamentos o mais cedo possível e durante o maior tempo possível.
- Criar "espaços de intimidade" para os pais, sair sem filhos, fazer "vida de casal".

Mesmo que alguns tentem justificar estas recomendações dizendo que é “para que a mãe descanse”, a verdade é que nunca a proíbem nada de cansativo. Ninguém lhe diz “Não limpe tanto que ele se acostumará a ter a casa limpa” ou “quando ele for para o exército você vai ter que ir junto para lavar a roupa dele”. Na realidade, o proibido costuma ser a parte mais agradável da maternidade: fazer o bebê dormir no colo, cantar para ele, desfrutar com ele. 

Talvez por isso criar os filhos se torne algo tão penoso para algumas mães. Há menos trabalho que antes (água corrente, máquina de lavar, fraldas descartáveis...), mas também há menos compensações. Em uma situação normal, quando a mãe desfruta a liberdade de cuidar do seu filho como julga conveniente, o bebê chora pouco e, quando chora, a mãe sente pena e compaixão (“tadinho, o que será que ele tem?”). Mas quando a proíbem de pegá-lo no colo, dormir com ele, dar o peito e consolá-lo, o bebê chora mais, e a mãe vive esse choro com impotência e, a longo prazo, com raiva e hostilidade (“e agora, até parece que está morrendo!!”).

Todos esses tabus e preconceitos causam sofrimento às crianças, mas também deixam os pais infelizes. Quem é que eles satisfazem então? Talvez alguns pediatras, psicólogos, educadores e vizinhos que os defendem. Eles não têm o direito de lhe dar ordens ou dizer como você deve viver sua vida e tratar seu filho.

Bésame Mucho –  ed. Timo, Carlos González.
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